Empresários argentinos temem desvalorização do real

A desvalorização do real, que em maio chegou a 8,8%, somada a incertezas sobre crescimento da economia brasileira e vulnerabilidade à alta dos juros nos Estados Unidos, preocupa empresários e analistas argentinos.

Eles temem que a diferença no câmbio entre as duas economias gere aumento das exportações do Brasil para a Argentina.
“Nossa preocupação é que a desvalorização do real facilite ainda mais a venda de mercadorias brasileiras para o mercado argentino”, disse Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados.

A ex-secretária de Indústria da Argentina Débora Giorgi entende que a questão não se limita ao valor da moeda nos dois países. Profunda conhecedora das duas economias, ela considera que, se o Brasil não crescer fortemente e as diferenças cambiais forem mantidas, será preciso flexibilizar o comércio dos dois países.


Crescimento

“Nesse momento, o principal é que não está claro se o Brasil terá ou não pela frente um caminho de crescimento forte, apesar do resultado de crescimento divulgado na semana passada. E também não sabemos o que acontecerá com a inflação brasileira”, disse.

Com pouco crescimento da economia nacional, os industriais brasileiros manteriam a tendência de exportar seus produtos para a Argentina, que vive tempos de crescimento recorde.
Débora Giorgi lembra que a diferença entre o real e o peso está em torno dos 5%.

Ela não acredita que essa diferença será muito maior, daqui para frente, mas lembra que a substituição de importações adotada pela Argentina vem favorecendo diferentes setores como o têxtil, de sapatos, máquinas agrícolas, papel e eletrodomésticos, entre outros.

“Se o Brasil crescer fortemente, será mais fácil suportar as diferenças cambiais. Mas um Brasil sem crescer intensamente obrigará os dois sócios a flexibilizarem, de comum acordo, algumas regras setoriais de comércio”, disse.

Tanto Débora quanto Orlando Ferreres ainda chamam a atenção para os efeitos que as taxas de juros americanas poderão ter sobre a dívida brasileira – hoje em torno dos 57% do Produto Interno Bruto (PIB) e com uma concentração de vencimentos previstas para os próximos meses.

“Não podemos falar, de jeito nenhum, da questão cambial de forma isolada. Não se trata apenas de uma questão comercial específica, mas conjuntural”, explicou a ex-secretária.


Já José Luis Espert, da consultoria Espert e Associados considera que não há perigo que ocorra a temida “invasão” de produtos brasileiros.

“Isso tudo é falácia. Alguns empresários argentinos estão aproveitando o momento para fazer lobby junto ao governo do presidente Néstor Kirchner, tentando conseguir barreiras tarifárias às importações de produtos brasileiros”, disse.


Para ele, esse "lobby" parte de setores que não são competitivos ou não estão preparados para a concorrência com a indústria brasileira.

Espert não concorda com a tese dos industriais argentinos, reunidos na União Industrial Argentina (UIA), de que haverá uma “avalanche” de produtos brasileiros nas prateleiras argentinas.

Segundo dados do Centro de Estudos Bonaerenses (CEB), especializado em comércio exterior, a Argentina vem acumulando, há onze meses, déficit na balança comercial com o Brasil. Uma mudança de tendência, comparada a anos anteriores.

Somente em abril, o país registrou déficit de US$ 127 milhões. Nos primeiros quatro meses deste ano foram US$ 511 milhões de diferença no comércio bilateral com o Brasil