Só "choque competitivo" salva Argentina, diz economista

De acordo com José Luis Espert conhecido por suas posições radicais, o modelo econômico argentino se esgotou, a idéia de déficit zero como foi apresentada é uma ilusão e o país, na verdade, vive um momento de total implosão. A única saída, segundo a economista, seria, além do déficit zero, a abertura total da economía e a desvalorização. As consequências disso tudo para o Mercosul não o preocupam: para Espert, o Mercosul já acabou.

Buenos Aires – Déficit zero, abertura total da economia e desvalorização. Essa é a única saída para salvar a Argentina da encruzilhada recessiva na qual mergulhou, disse o economista José Luis Espert, da Espert Associados, em entrevista concedida à Agência Estado poucas horas depois de os governadores do Partido Justicialista (peronista) assinarem o acordo de déficit zero proposto pelo ministro de Economia, Domingo Cavallo.

De acordo com Espert, o modelo econômico argentino (conversibilidade) se esgotou, e a única forma de tirar o país do círculo vicioso do qual nao consegue se safar há mais de 36 meses é com o que ele chamou de "choque de capitalismo competitivo". Só assim, acrescentou o economista, a Argentina poderá prescindir de empréstimos internos e externos para financiar seu crescente déficit fiscal. Certamente, emendou Espert, esse choque implica crise, mas de curto prazo. "Pelo menos a minha crise é crise com futuro, que a Argentina deixou de ter."

Para Espert, um dos economistas mais criticados por sua postura radical e por suas previsões pessimistas, a proposta de déficit zero do governo De la Rúa deveria ter sido implementada há quatro anos, ainda durante o governo Menem, quando a taxa de risco país estava em 400 pontos-base (4%) e os números do déficit fiscal mostravam que a sua expansão tornaría o gasto público insustentável.

Mercosul

Mas a proposta de abrir a economia, liberando as tarifas de importação para todo tipo de bens de consumo e bens duráveis e semiduráveis, não acabaria com o Mercosul? "O Mercosul já acabou e hoje nada mais é do que uma simuiação de abertura económica", responden o economista. Mas essa sua proposta de escancarar de vez as portas da Argentina para todo tipo de produtos não esbarraria no neoprotecionismo da União Industrial Argentina (UIA)? "A forma de proteger a industria é desvalorizando a moeda. Seria uma protegão sem distorções", disse.

O economista defendeu veementemente a necessidade de a Argetina desvalorizar já o peso, passando da atual taxa de câmbio de 1 peso por 1 dólar para pelo menos 2 pesos por dólar. Depois, acrescentou, "eu manteria a conversibilidade, porém com essa nova taxa de câmbio, e renegociaria a divida externa, que hoje é igualmente impagável". De acordo com ele, a Argentina nao tem chance alguma para pagar a divida pública, mais uma razão para, custe o que custar, desvalorizar a moeda.

Fundo do poço

Gostaria que a Argentina estivesse em outra situação, naquela que a rnaioria dos economistas e o governo sonham, mas, técnicamente, não vejo reação alguma para o país com esse modelo que se arrasta há dez anos", afirmou o economista. Espert disse que, hoje, não existe nenhum indicador mostrando recuperação da economía e, ao mesmo tempo, nenhum outro que indique que a recessão já tocou o fundo do pogo. Ou seja, insistiu, com o seu pessimismo habitual, "estamos indo em dirção a uma deterioração ainda maior da economía e, se conseguirmos atingir o déficit zero proposto pelo governo, será apenas até as eleições de outubro." Nesse mês, a Argentina vai renovar metade da Cámara de Deputados e a totalidade do Senado.

Para o economista da Espert Associados, o ajuste fiscal baixado na semana passada e que tirou 13% dos salários dos funcionarios públicos e dos aposentados para financiar o crescente déficit fiscal é excessivamente recessivo e não vai tirar a Argentina da espiral em que mergulhou.
"Suponhamos que ajuste dê certo e o país consiga direcionar-se ao déficit zero, gerando superávit primário para pagar os servidos da divida. Nada indica, porém, que esse resultado não influencia negativamente no nível de atividade econômica. Nesse caso, vamos voltar ao mesmo circulo vicioso dos últimos 36 meses, período em que os parcos ganhos foram todos transferidos para o pagamento dos juros da dívida, da qua¡ 90% está em mãos externas", disse.

Para ele, a recesaão vai se agravar ainda mais com a falta de ingressos e com maior saída de capital. Por isso, acrescentou Espert, a chance de a Argentina obter o déficit zero se dará apenas nos meses de agosto e setembro. O economista acredita ainda que, no último trimestre, o governo do presidente De la Rúa se verá na obrigação de reduzir seus gastos em pelo menos mais US$ 4 bilhões e, para isso, os 13% dos servidores públicos e aposentados não seráo suficientes e haverá necessidade de um novo corte de gastos, mas desta vez em pelo menos 60%.

Impiosão

"Não temos chance alguma de estruturar o déficit pelo tipo de divida e pela falta de capital", afirmou. Sem poupar uma palavra sequer em suas duras críticas e sem temor algum sobre as consequências de suas previsões pessimistas, Espert disse que, no mais tardar, o recrudecimento da crise argentina se dará a partir de outubro deste ano. "Os mercados sabem da estupidez argentina e que o país não vai chegar ao déficit zero prometido, já que o redução do gasto público será apenas transitoria", afirmou.

Para ele, a Argentina está em um momento de implosão económica e social. "Meu temor é que o país entre no processo de corrida bancária, com perda de depósitos e reservas. Se isso ocorrer, o Banco Central vai ficar sem reservas.
Por isso, nesse cenário caótico, mais vale fazer uma desvalorização hoje com os US$ 20 bilhões que o BC tem em caixa do que esperar quebrar."

Défícit

O déficit fiscal argentino projetado para o terceiro trimestre deste ano foi corrigido de US$ 545 milhões para US$ 869 milhões. Esse aumento de US$ 324 milhões se refere a um "reforço" em gastos sociais determinados pelo presidente Fernando de la Rúa antes de o ministro Domingo Cavallo ter definido o porcentual de corte de 13% nos salários do funcionalismo público, nas aposentadorias acima de 300 pesos e nos contratos do Estado com fornecedores. Esta conta foi utilizada pelo ministro de Economia como exemplo do que vai ter ser feito todos os trimestres, "enquanto seja necessário", para cumprir o compromisso de défict zero.

O ministro se comprometes a reduzir o porcentual do corte nos salarios toda vez que o Tesouro argentino conseguir arrecadar mais do que gasta e convidou os governadores das provincias que se encontram em mãos dos peronistas (Partido Justicialista) a usar os mesmos mecanismos para cumprir com o défict zero, caso contrario não terão outra alternativa para acertar as suas contas. "Não há mais dinheiro. Não acreditamos mais que o sistema financeiro ou o mercado de capitais possam oferecer recursos que não sejam apenas os necessários para manter o nivel de endividameto. Isto é, para renovar os vencimentos de capital, ante o pagamento pontual dos juros", disse o ministro.