Governo corre risco de perder maioria legislativa em eleições

A economia argentina perdeu cerca de US$ 7 bilhões no primeiro quadrimestre deste ano. Este é o valor estimado dos recursos enviados para fora do país por empresas e cidadãos, nacionais e estrangeiros, com base nos dados oficiais do Banco Central. Segundo a autoridade monetária, US$ 5,684 bilhões deixaram o país entre janeiro e março de 2009, US$ 1 bilhão menos que no trimestre anterior, porém US$ 3,5 bilhões mais que no mesmo período de 2008.

O valor de abril, de aproximadamente US$ 1,5 bilhão, é uma estimativa otimista das corretoras de câmbio da City portenha. Se confirmado, e mantido esse ritmo de fuga de divisas, a Argentina chegará ao fim de 2009 sem US$ 22 bilhões, quase o mesmo valor remetido ao exterior em 2008 como resultado do locaute agropecuário e a crise internacional.

O Banco Central tem tomado medidas para evitar uma fuga ainda maior de divisas e conter a desvalorização do peso, através da colocação de títulos e venda da moeda nacional. Mas todo o esforço está ameaçado pelas eleições legislativas, marcadas para 29 de junho, em que os argentinos vão às urnas para renovar metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, além das assembleias provinciais. O mais curioso é que a ameaça não vem da oposição, mas do próprio governo.

Prestes a perder a maioria na Câmara e no Senado (pelo que indicam as pesquisas de opinião), Néstor e Cristina Kirchner – que na prática governam o país juntos, embora só ela seja a presidente constitucional – decidiram apelar. Ameaçaram os eleitores dizendo que, se perderem a maioria no Poder Legislativo, o país voltará ao "caos" de 2001, ano em que os argentinos viveram sua pior crise financeira. E com isso estimularam ainda mais a saída de divisas.

"Se perdemos, o país volta a 2001", disse o ex-presidente Néstor Kirchner, atual presidente do Partido Justicialista e candidato a deputado, em um pronunciamento dia 28 de abril.

Um ano e cinco meses depois de assumir o lugar do marido, Cristina tem a popularidade em baixa, da mesma forma que a atividade econômica e os investimentos. Já a fuga de divisas está em alta, assim como a debandada de aliados entre deputados, senadores, governadores e prefeitos. No desespero, Cristina entrou no jogo do marido e afirmou semana passada, sobre as eleições de junho: "A estabilidade democrática está em jogo", colocando ainda mais lenha na fogueira da fuga de dólares.

"Este é o único governo no mundo que ameaça a sociedade em vez de dar tranquilidade", diz o economista Jorge Todesca, da consultoria Finsoport. A pergunta que se faz hoje no país é: o que acontecerá dia 29 de junho, se os Kirchner perdem a maioria no Legislativo? O país está mesmo à beira de uma nova crise como a de 2001?

"Essa é apenas uma lamentável estratégia política", responde o economista David Mermelstein, da consultoria Econviews. Segundo ele, apesar da fuga de capitais para a qual as declarações do casal Kirchner só contribuem para piorar, os fundamentos da economia argentina de 2009 estão "muito longe" dos de 2001. "Em primeiro lugar, os termos de intercâmbio hoje são muito melhores que os daquele período, mesmo depois da forte queda sofrida com a crise internacional", diz Mermelstein, referindo-se às cotações mundiais dos principais produtos exportados pela Argentina (soja e seus derivados, carne e commodities minerais). Por outro lado, o sistema bancário, que em 2001 estava em frangalhos, hoje é sólido e seguro.

Também o economista Daniel Marx, ex-subsecretário de Finanças e negociador da dívida externa nos anos 90, destaca os indicadores do setor externo como diferenciais da economia argentina atual, que não havia em 2001. "O nível de reservas, os preços de exportação da soja, acima de US$ 400 mesmo depois da crise", afirma Marx, são pontos fortes hoje.

Há outros pontos positivos, diz Jorge Todesca, em uma tentativa de amenizar as desastradas declarações dos Kirchner. Apesar da queda da atividade econômica, principalmente da indústria automobilística e da construção civil, o desemprego está relativamente estável e o salário real se recuperou em parte este ano, fazendo com que as vendas de produtos básicos nos supermercados tenham se mantido estáveis nos últimos dois meses, depois de haver caído fortemente no fim do ano passado e início deste.

Há, porém, alguns pontos negativos, o principal deles é a rápida deterioração das contas públicas, pelo aumento de despesas muito acima da arrecadação, e a queda do investimento privado. Os investimentos caíram muito como efeito da crise financeira internacional, mas já vinham em baixa, repercutindo a intervenção do governo com controles de preços e a feroz disputa aberta com os agricultores que já leva um ano e não dá sinais de reversão.

Em um trabalho apresentado semana passada, Todesca aponta que desde junho a velocidade dos gastos do governo nacional supera em mais de dez pontos percentuais a velocidade da arrecadação tributária.

Em março passado, último dado disponível, enquanto a arrecadação corrente subia 16%, as despesas correntes subiam 28%.

O economista José Luis Espert, da consultoria Espert & Associados, estima uma redução de aproximadamente 7% na taxa de investimentos em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), que baixaria de 21% a 19%, a preços constantes. "Está havendo uma queda muito forte (nos investimentos) do setor automotivo e na construção", diz Espert. "As pessoas hoje poupam para mandar o dinheiro para fora do país", completa. Para ele, a novidade não é a evasão de divisas, e sim a proporção: "Não dá na mesma tirar meio ponto do produto ou sete pontos do produto".

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José Luis Espert

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