Para economista, governo mexeu em vespeiro

O governo argentino pode ter mexido num "vespeiro" ao mudar o câmbio para o comércio externo. Na avaliação do economista José Luis Espert, da consultoria Espert & Associados, a mudança pode ser lida como um sinal de que outras mudanças cambiais poderão vir, se necessário.

"Poderia ser o princípio de um processo de desvalorização", afirma. Para Espert, outras medidas do plano podem produzir um rombo nas contas do governo da ordem de US$ 10 bilhões. "O plano é um disparate", disse. Leia a seguir trechos da entrevista que concedeu ontem à Folha:

Folha – Qual a razão da má reação do mercado ao pacote econômico anunciado na sexta-feira?

José Luis Espert – Ele indica claramente que, se o governo mexeu no tipo de câmbio que se pode chamar de comercial, também poderia mexer no outro tipo de câmbio, que afeta todas as transações financeiras.
Poderia ser o princípio de um processo de desvalorização. Quando alguém começa esse processo, dá o sinal que mexeu um pouco, a leitura do mercado é que podem seguir mexendo se necessário.

Além disso, Cavallo não teve nenhuma coerência como ministro desde que assumiu. Sobe taxas, baixa taxas, põe imposto, tira imposto, diz que vai cortar gastos, não corta, diz que a conversibilidade dura para sempre, depois aparece com a cesta de moedas…

Folha – Qual a consequência da mudança do câmbio?

Espert – Acho que isso é um retrocesso ideológico muito grande, desdobrar os mercados de câmbio e estabelecer essas desvalorizações compensadas.
Porque a Argentina teve isso nas décadas de 70 e 80, e terminamos no pior dos mundos, que foi a hiperinflação no fim dos anos 80.

Folha – E quais os problemas do restante do plano?

Espert – Me parece delirante e inconsciente um aumento do déficit fiscal com as medidas de sexta-feira. Cavallo decidiu emitir US$ 5 bilhões em dívida pública para documentar dívidas que a DGI (o órgão arrecadador) tem com o setor privado por pagamentos adiantados de impostos que não foram utilizados.

Folha – Mas isso não está condicionado à cobrança de outros US$ 15 bilhões que a DGI tem a receber em impostos atrasados?

Espert – Não pareceu como um condicionamento. A única coisa que Cavallo disse na sexta-feira é que esses US$ 5 bilhões teriam como garantia esses US$ 15 bilhões, mas não disse que está condicionado. Aumentar a dívida pública quando a Argentina já passou duas vezes à beira de uma cessação de pagamentos, como foi em novembro passado, quando obtivemos o pacote de "blindagem financeira", e agora, quando saímos da situação com a megatroca de títulos, é um disparate.

Folha – Esperava-se um corte de gastos entre as medidas?

Espert – O governo disse que já fez dois terços dos cortes de US$ 900 milhões que havia anunciado há um mês, mas, se você olhar os números, não há nada de baixa de gastos.
Os gastos dos cinco primeiros meses do ano estão acima dos gastos do mesmo período do ano passado, sem contar os juros da dívida. Nesse contexto, estão ainda propondo a mudança na base de cobrança do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), o principal imposto que tem a Argentina, que arrecada mais de US$ 20 milhões por ano. Hoje, o imposto é pago após a emissão da fatura, e o sujeito recebe 90 ou 120 dias mais tarde. O que Cavallo propõe é que se pague o IVA só após o recebimento.

Se a mudança for aprovada, haverá perda de IVA por pelo menos 90 dias. São US$ 1,7 bilhão por mês. São US$ 5 bilhões de perda de arrecadação neste ano. Isso vai praticamente duplicar o déficit fiscal no ano. É um disparate, quando parece que não há nenhuma perspectiva de cumprimento da meta do déficit anual acertada com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Folha – E o que o governo tem de fazer para reverter essa situação?

Espert – Para evitar a crise hoje, o governo deve fazer um ajuste fiscal muito dramático. Sem isso, é muito difícil evitar uma crise grande, do tipo bancária e cambial. Necessitamos de déficit fiscal zero urgente. A causa da crise argentina foi uma política fiscal diabolicamente expansiva nos últimos dez anos, com Cavallo como seu principal ideólogo nos primeiros seis anos. O financiamento externo dessa política fiscal expansiva inflou muito a economia e atrasou o tipo de câmbio como nunca na história.
Este é o momento mais caro de nosso país em dólares na história. Depois que a economia se inflou muito, agora está desinflando. Para ir à causa, temos de ter um déficit fiscal zero urgente.
Só assim pode-se corrigir parte do atraso cambiário.